A
mulher dos sinos da matriz
Há quase quatro décadas Kamola segue o mesmo ritual três vezes ao dia
Por
Karla Ribeiro
Matéria realizada para Faculdade SATC/Curso de Jornalismo em 2013
Com passos rápidos, ela vem descendo o
morro da Igreja Matriz Nossa Senhora da Conceição de Urussanga. Todos os dias,
três vezes ao dia: poucos minutos antes das seis da manhã, meio-dia e seis da
tarde. “Menos domingo porque é meu único dia de folga de tocar os sinos”,
explica Terezinha Kamola Costa, mulher simples e de braços fortes, talvez
porque tantos anos fazendo os sinos da Matriz soarem os tenham deixado mais
vigorosos.
Kamola, como é conhecida em Urussanga,
nasceu em Meleiro, mas conta que desde os oito anos de idade foi morar no
Paraíso da Criança. “O Paraíso, antes, era um orfanato, vivia cheio de meninas
e as freiras não davam moleza para a gente, não”, comenta. Kamola explica que
logo após sua mãe falecer, foi doada pelo próprio pai à avó, que acabou a
deixando no orfanato. “Éramos em três irmãs e fomos todas deixadas em famílias
diferentes. Hoje só tenho contato com uma delas”, recorda.
A menina criada no Paraíso da Criança
afirma que nunca se desligou da instituição que a acolheu desde os oito anos de
idade. “Eu me criei e me casei aqui no Paraíso. Saí daqui somente por um ano,
mas depois voltei. Meus filhos estão criados e hoje moro em um quartinho que,
para mim, está bom”, declara.
Atualmente, ela trabalha na cozinha da
Casa Lar (abrigo que fica anexo ao Paraíso da Criança), além de tocar os sinos
da Igreja Matriz. “Mas isso não é trabalho, é compromisso”, enfatiza.
Mesmo satisfeita com o trabalho
realizado, o sonho da casa própria faz parte de sua vida. "Antes de
morrer, eu ainda quero comprar minha casinha. Estou guardando um dinheiro para
isso porque eu nunca tive esse prazer de morar no que é meu”, diz ela, com os
olhos cheios de esperança.
A
arte de tocar os sinos
Aos 63 anos de idade, Kamola mostra-se
orgulhosa ao falar de sua função de tocar os sinos da Igreja Matriz
diariamente. “Quando nós éramos crianças, sempre acompanhávamos as freiras e
fomos aprendendo a tocar o sino. Quem me convidou a fazer essa função foi o
Padre Agenor e isso já faz 38 anos”, conta.
Todos os dias, ela segue um roteiro: sai
de onde mora no Paraíso da Criança para puxar as cordas dos sinos da igreja do
centro de Urussanga. “O relógio da matriz toca às seis da manhã, ao meio-dia e
às seis da tarde. Poucos minutos antes de bater o relógio, eu desço e abro a
torre dos sinos”, explana.
A torre da Igreja Matriz de Urussanga
possui quatro sinos: o sino dos Anjos, o sino das Tempestades, o sino de Nossa
Senhora e o sino Solene, este último sendo o maior de todos com 800 quilos.
Quando questionada sobre período de
férias, Kamola não hesita e fala satisfeita: “Eu toco direto!”.
O toque dos sinos faz de Kamola uma
pessoa especial, pois cada sino possui um som diferente e para cada ocasião se
deve tocar de uma forma. “Quando falece criança temos de tocar o sino menor,
quando falece mulher são dois toques e quando falece homem são três toques”,
explica. “Sem contar que tem que esperar o momento certo para puxar a corda do
sino maior, mas já estou acostumada. Afinal, são tantos anos fazendo isso que
já estou acostumada”, complementa.
Histórias
do sino
Kamola diz nunca ter se atrasado para
tocar os sinos. “É muito difícil de eu falhar, o que aconteceu foi o
despertador que não despertou”, lembra. “Uma vez aconteceu de eu bater o sino
às cinco da manhã, isso faz muitos anos. Era uma manhã bem clara, aí me
confundi. De repente começou a passar gente correndo, veio uma mulher e me
perguntou se o Papa havia morrido pela hora em que o sino estava tocando.
Fiquei espantada, eu me desesperei”, recorda, risonha.
O pároco de Urussanga, padre Jiovani
Manique Barreto, também comenta sobre a importância dos sinos da Igreja Matriz.
“O comércio se organiza a partir do relógio da torre. Houve um caso até de uma
pessoa que ocupava um cargo importante na cidade que registrou um boletim,
reclamando do toque do sino em 2008. No entanto, o promotor julgou os sinos da
Matriz como patrimônio histórico-cultural de Urussanga na época”, relembra o
padre.