Prestes a completar 79
anos de idade, ele é divertido, crítico e, acima de tudo, jornalista. Lício Silva,
gaúcho e gremista de coração, possui uma trajetória de vida muitas vezes não
imaginada por quem o ouve e com ele fala. Experiente e amante da vida, ele
conta os casos que mais o marcaram, desde os primeiros dias na Brigada Militar do
Rio Grande do Sul até sua projeção na vida jornalística. Cheio de casos para
contar, ele fala de uma vida rica em detalhes, traduzida em trabalho e
otimismo. Esse é Lício Silva, pai de 12 filhos e casado com uma mulher 40 anos
mais jovem.
Karla:
Lício Silva, como você começou no Jornalismo, sendo que você estava na Brigada
Militar?
Lício: Na época da
Brigada, eu tinha uma namorada que não queria que eu permanecesse lá. Abandonei
a vida militar, mas ela acabou casando com outro e eu, com outra. Mas uma semana depois li no jornal que a Rádio
Farroupilha iria fazer uma seleção para a locução. Decidi participar, acabei
ficando em segundo, já que levei vantagem nos conhecimentos gerais. Na seleção
havia gente experiente em rádio. Apesar de nunca ter falado no microfone,
também consegui. Foi muito importante ter conhecimento na Língua Portuguesa.
K:
Você entrou para a Farroupilha?
L: Sim. Entrei já no
Jornalismo. E lembro que minha transmissão externa foi da morte de um político
muito famoso no Rio Grande do Sul, era candidato a governador.
K:
O nome dele?
L: Não lembro. Sei que
era muito conhecido. Com a idade a gente se esquece de muita coisa. Outro fator
também é o excesso de nomes que lidamos diariamente na profissão. Acabamos esquecendo.
K:
Você entrevistou muitos políticos?
L: Sim. Jânio Quadros,
Juarez Távola, Gaspar Dutra no final do governo. Aliás, Gaspar Dutra foi o
primeiro em quem votei.
K:
Em quantas rádios você trabalhou?
L: Já trabalhei em mais
de 30 rádios em todo o Brasil: Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Paraná e São
Paulo.
K:
Que rádio de SP?
L: Foi em santos, não
na capital. Aproveitei a praia e o Carnaval de lá também.
K:
Carnaval em Santos?
L: Sim. Um dos melhores
do Brasil.
K:
No início, você falou que tinha se casado. O que aconteceu durante essas
viagens todas?
L: Bem, meu filho mais
velho tem 58 anos. Já tenho netos, quase tataranetos. Já tive várias esposas. Já
sou até viúvo de duas. Tenho 12 filhos e não sei o número de netos. São tantos...(risos)
K:
Como sagitariano, nascido em 10 de dezembro, você acredita em astrologia?
L: Acredito. Já estudei
alguma coisa disso também. Inclusive tive um programa chamado “Música,
Horóscopo e Sonho”. Já fui produtor de radionovelas também. Isso tudo no Rio
Grande.
K:
Uma matéria que marcou você?
L: A enchente de 1974. Eu
estava no Rio Grande do Sul quando aconteceu. Na realidade, era final de
semana, eu trabalhava em Criciúma na Rádio Eldorado, fui passear por lá e tive
de dar boletins de Araranguá porque era impossível chegar à cidade. Em Araranguá
cheguei de canoa porque até os trilhos da ferrovia foram distorcidos pelas
águas. Um boletim interessante que marcou foi o do repórter Esso. Uma noite
quando o “original” não pôde. Fui ouvido na Suécia naquele dia.
K:
Canoa? Você tem descendência indígena, não?
L: Exatamente. Minha bisnona
era índia. Foi laçada literalmente pelo meu bisnono que estava num campo. Ele era
moço ainda. Quando a viu, pegou na corda e a laçou, levando-a para casa. Depois
de um tempo, a história da família começou. (risos)
K:
Falando um pouco mais de você, que tal o Grêmio na segunda divisão do
Campeonato Brasileiro?
L: Não falem mal do
Grêmio, por favor (risos).
Estarei “com o Grêmio onde o Grêmio estiver”. A cor azul é a minha preferida.
K:
Dizem que você era muito namorador...
L: Na época que não
existia TV era mais fácil. As meninas iam na porta da rádio para falar conosco.
Algumas se decepcionavam. Outras, não. Namorávamos bastante, mas somente quando
dava tempo. Hoje sou casado com uma mulher 40 anos mais jovem.
K:
Que mensagem você leva dessa vida, com a experiência que você adquiriu desde
cedo?
L: Se não fosse a vida,
não estaríamos aqui (emocionado).
A vida é dádiva divina. Agradeço a Deus por permitir que eu ainda fale, ouça...(sai emocionado, sem concluir o
pensamento).
Entrevista realizada por Karla
Ribeiro no 2º semestre do ano de 2004 enquanto acadêmica da 2ª fase de
Jornalismo da UNISUL/Tubarão.
Lício Silva faleceu em 04/12/2011 na cidade de Urussanga, um dia após apresentar seu programa de rádio no sábado
pela manhã pela Rádio Fundação Marconi de Urussanga e seis dias antes de seu
aniversário. Deixa, ainda, saudades...
