domingo, 17 de fevereiro de 2013

JORNALISTA ENQUANTO PUDER


Prestes a completar 79 anos de idade, ele é divertido, crítico e, acima de tudo, jornalista. Lício Silva, gaúcho e gremista de coração, possui uma trajetória de vida muitas vezes não imaginada por quem o ouve e com ele fala. Experiente e amante da vida, ele conta os casos que mais o marcaram, desde os primeiros dias na Brigada Militar do Rio Grande do Sul até sua projeção na vida jornalística. Cheio de casos para contar, ele fala de uma vida rica em detalhes, traduzida em trabalho e otimismo. Esse é Lício Silva, pai de 12 filhos e casado com uma mulher 40 anos mais jovem.

Karla: Lício Silva, como você começou no Jornalismo, sendo que você estava na Brigada Militar?
Lício: Na época da Brigada, eu tinha uma namorada que não queria que eu permanecesse lá. Abandonei a vida militar, mas ela acabou casando com outro e eu, com outra.  Mas uma semana depois li no jornal que a Rádio Farroupilha iria fazer uma seleção para a locução. Decidi participar, acabei ficando em segundo, já que levei vantagem nos conhecimentos gerais. Na seleção havia gente experiente em rádio. Apesar de nunca ter falado no microfone, também consegui. Foi muito importante ter conhecimento na Língua Portuguesa.
K: Você entrou para a Farroupilha?
L: Sim. Entrei já no Jornalismo. E lembro que minha transmissão externa foi da morte de um político muito famoso no Rio Grande do Sul, era candidato a governador.
K: O nome dele?
L: Não lembro. Sei que era muito conhecido. Com a idade a gente se esquece de muita coisa. Outro fator também é o excesso de nomes que lidamos diariamente na profissão. Acabamos esquecendo.
K: Você entrevistou muitos políticos?
L: Sim. Jânio Quadros, Juarez Távola, Gaspar Dutra no final do governo. Aliás, Gaspar Dutra foi o primeiro em quem votei.
K: Em quantas rádios você trabalhou?
L: Já trabalhei em mais de 30 rádios em todo o Brasil: Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Paraná e São Paulo.
K: Que rádio de SP?
L: Foi em santos, não na capital. Aproveitei a praia e o Carnaval de lá também.
K: Carnaval em Santos?
L: Sim. Um dos melhores do Brasil.
K: No início, você falou que tinha se casado. O que aconteceu durante essas viagens todas?
L: Bem, meu filho mais velho tem 58 anos. Já tenho netos, quase tataranetos. Já tive várias esposas. Já sou até viúvo de duas. Tenho 12 filhos e não sei o número de netos. São tantos...(risos)
K: Como sagitariano, nascido em 10 de dezembro, você acredita em astrologia?
L: Acredito. Já estudei alguma coisa disso também. Inclusive tive um programa chamado “Música, Horóscopo e Sonho”. Já fui produtor de radionovelas também. Isso tudo no Rio Grande.
K: Uma matéria que marcou você?
L: A enchente de 1974. Eu estava no Rio Grande do Sul quando aconteceu. Na realidade, era final de semana, eu trabalhava em Criciúma na Rádio Eldorado, fui passear por lá e tive de dar boletins de Araranguá porque era impossível chegar à cidade. Em Araranguá cheguei de canoa porque até os trilhos da ferrovia foram distorcidos pelas águas. Um boletim interessante que marcou foi o do repórter Esso. Uma noite quando o “original” não pôde. Fui ouvido na Suécia naquele dia.
K: Canoa? Você tem descendência indígena, não?
L: Exatamente. Minha bisnona era índia. Foi laçada literalmente pelo meu bisnono que estava num campo. Ele era moço ainda. Quando a viu, pegou na corda e a laçou, levando-a para casa. Depois de um tempo, a história da família começou. (risos)
K: Falando um pouco mais de você, que tal o Grêmio na segunda divisão do Campeonato Brasileiro?
L: Não falem mal do Grêmio, por favor (risos). Estarei “com o Grêmio onde o Grêmio estiver”. A cor azul é a minha preferida.
K: Dizem que você era muito namorador...
L: Na época que não existia TV era mais fácil. As meninas iam na porta da rádio para falar conosco. Algumas se decepcionavam. Outras, não. Namorávamos bastante, mas somente quando dava tempo. Hoje sou casado com uma mulher 40 anos mais jovem.
K: Que mensagem você leva dessa vida, com a experiência que você adquiriu desde cedo?
L: Se não fosse a vida, não estaríamos aqui (emocionado). A vida é dádiva divina. Agradeço a Deus por permitir que eu ainda fale, ouça...(sai emocionado, sem concluir o pensamento).

Entrevista realizada por Karla Ribeiro no 2º semestre do ano de 2004 enquanto acadêmica da 2ª fase de Jornalismo da UNISUL/Tubarão.
Lício Silva faleceu em 04/12/2011 na cidade de Urussanga, um dia após apresentar seu programa de rádio no sábado pela manhã pela Rádio Fundação Marconi de Urussanga e seis dias antes de seu aniversário. Deixa, ainda, saudades...