sábado, 31 de dezembro de 2016

A cada 14 dias morre um idioma, por El País

A cada 14 dias morre um idioma

Nos últimos 10 anos mais de 100 línguas desapareceram

Reportagem publicada no El País


Tommy George, que morreu em julho, era o último falante de awu laya, uma língua aborígene da Austrália. Getty Images
No mês passado, foi assassinada na floresta do norte do Peru Rosa Andrade, de 67 anos, a última mulher falante de resígaro, uma das 43 línguas indígenas da Amazônia..

Rosa Andrade, a última mulher que falava resígaro, foi assassinada em novembro, na Amazônia peruana.
Tommy George, o último dos kuku-thaypan de Cape York (Austrália), morreu no dia 29 de julho, com 88 anos. Tommy George era o último falante de awu laya, uma língua aborígene da Austrália. Com ele morreram 42.000 anos de história e conhecimentos transmitidos de forma oral.
Cristina Calderón (nascida em 24 de maio de 1928) é a última falante nativa da língua yagán, da Terra do Fogo. Hoje ela vive em Puerto Williams, um assentamento militar chileno na ilha Navarino.
Cristina Calderón (nascida em 24 de maio de 1928) é a última falante nativa da língua yagán, da Terra do Fogo. EL PAÍS
Nos últimos 10 anos, desapareceram mais de 100 línguas; outras 400 estão em situação crítica e 51 são faladas por uma única pessoa. A cada 14 dias morre uma língua, de acordo com a Unesco. Se continuar assim, metade das 7.000 línguas e dialetos falados hoje no mundo se extinguirão ao longo deste século. Quando uma língua morre não se perdem apenas as palavras, mas todo o universo cultural ao qual davam forma: séculos de histórias, lendas, ideias, canções transmitidas de geração em geração que desaparecem “como lágrimas na chuva”, junto com valiosos conhecimentos práticos sobre plantas, animais, ecossistemas, o firmamento. Um dano comparável à extinção de uma espécie.
Fanny Cochrane gravando canções aborígenes da Tasmânia para a Royal Society de Hobart. Wikimedia
Tom Fanny Cochrane, que morreu em 1905, se foi a última língua nativa da Tasmânia. Entre 1899 e 1903, ela gravou num dos primeiros fonógrafos as canções aborígenes que conhecia para a Royal Society of Hobart, a capital da ilha australiana. O cantor folk Bruce Watson conta a história dela em The Man and the Woman and the Edison Phonograph (O Homem e a Mulher e o Fonógrafo Edison). 
A continuação da reportagem você pode acessar no link: <http://brasil.elpais.com/brasil/2016/12/26/cultura/1482746256_157587.html>
Boa leitura! E não podemos deixar mais línguas morrerem sem a devida atenção...
 

terça-feira, 20 de dezembro de 2016

"3x5: este não é um livro de matemática"

No último sábado, 17 de dezembro, tive o prazer de lançar o livro "3x5: este não é um livro de matemática" em parceria com duas mentes fantásticas: o jornalista César Pereira e o professor Lauro Henrique, na cidade de Urussanga, sul de Santa Catarina. Agradeço a todos que estiveram presentes na Praça Anita Garibaldi prestigiando o lançamento, incentivando a publicação.
 Amigos passaram na tenda de lançamento para conhecer a publicação co-autoral

 Amigos também prestigiaram o lançamento de "3x5" na manhã de sábado (17)

Presença do presidente do Foto Clube Urussanga, Luiz Antonio Neves Marques

terça-feira, 27 de setembro de 2016

A mulher dos sinos da matriz




A mulher dos sinos da matriz


Há quase quatro décadas Kamola segue o mesmo ritual três vezes ao dia

Por Karla Ribeiro
Matéria realizada para Faculdade SATC/Curso de Jornalismo em 2013

Com passos rápidos, ela vem descendo o morro da Igreja Matriz Nossa Senhora da Conceição de Urussanga. Todos os dias, três vezes ao dia: poucos minutos antes das seis da manhã, meio-dia e seis da tarde. “Menos domingo porque é meu único dia de folga de tocar os sinos”, explica Terezinha Kamola Costa, mulher simples e de braços fortes, talvez porque tantos anos fazendo os sinos da Matriz soarem os tenham deixado mais vigorosos.
Kamola, como é conhecida em Urussanga, nasceu em Meleiro, mas conta que desde os oito anos de idade foi morar no Paraíso da Criança. “O Paraíso, antes, era um orfanato, vivia cheio de meninas e as freiras não davam moleza para a gente, não”, comenta. Kamola explica que logo após sua mãe falecer, foi doada pelo próprio pai à avó, que acabou a deixando no orfanato. “Éramos em três irmãs e fomos todas deixadas em famílias diferentes. Hoje só tenho contato com uma delas”, recorda.
A menina criada no Paraíso da Criança afirma que nunca se desligou da instituição que a acolheu desde os oito anos de idade. “Eu me criei e me casei aqui no Paraíso. Saí daqui somente por um ano, mas depois voltei. Meus filhos estão criados e hoje moro em um quartinho que, para mim, está bom”, declara.
Atualmente, ela trabalha na cozinha da Casa Lar (abrigo que fica anexo ao Paraíso da Criança), além de tocar os sinos da Igreja Matriz. “Mas isso não é trabalho, é compromisso”, enfatiza.
Mesmo satisfeita com o trabalho realizado, o sonho da casa própria faz parte de sua vida. "Antes de morrer, eu ainda quero comprar minha casinha. Estou guardando um dinheiro para isso porque eu nunca tive esse prazer de morar no que é meu”, diz ela, com os olhos cheios de esperança.

 
Kamola é quem bate os sinos da Matriz

 A arte de tocar os sinos

Aos 63 anos de idade, Kamola mostra-se orgulhosa ao falar de sua função de tocar os sinos da Igreja Matriz diariamente. “Quando nós éramos crianças, sempre acompanhávamos as freiras e fomos aprendendo a tocar o sino. Quem me convidou a fazer essa função foi o Padre Agenor e isso já faz 38 anos”, conta.
Todos os dias, ela segue um roteiro: sai de onde mora no Paraíso da Criança para puxar as cordas dos sinos da igreja do centro de Urussanga. “O relógio da matriz toca às seis da manhã, ao meio-dia e às seis da tarde. Poucos minutos antes de bater o relógio, eu desço e abro a torre dos sinos”, explana.
A torre da Igreja Matriz de Urussanga possui quatro sinos: o sino dos Anjos, o sino das Tempestades, o sino de Nossa Senhora e o sino Solene, este último sendo o maior de todos com 800 quilos.
Quando questionada sobre período de férias, Kamola não hesita e fala satisfeita: “Eu toco direto!”.
O toque dos sinos faz de Kamola uma pessoa especial, pois cada sino possui um som diferente e para cada ocasião se deve tocar de uma forma. “Quando falece criança temos de tocar o sino menor, quando falece mulher são dois toques e quando falece homem são três toques”, explica. “Sem contar que tem que esperar o momento certo para puxar a corda do sino maior, mas já estou acostumada. Afinal, são tantos anos fazendo isso que já estou acostumada”, complementa.



Histórias do sino
Kamola diz nunca ter se atrasado para tocar os sinos. “É muito difícil de eu falhar, o que aconteceu foi o despertador que não despertou”, lembra. “Uma vez aconteceu de eu bater o sino às cinco da manhã, isso faz muitos anos. Era uma manhã bem clara, aí me confundi. De repente começou a passar gente correndo, veio uma mulher e me perguntou se o Papa havia morrido pela hora em que o sino estava tocando. Fiquei espantada, eu me desesperei”, recorda, risonha.
O pároco de Urussanga, padre Jiovani Manique Barreto, também comenta sobre a importância dos sinos da Igreja Matriz. “O comércio se organiza a partir do relógio da torre. Houve um caso até de uma pessoa que ocupava um cargo importante na cidade que registrou um boletim, reclamando do toque do sino em 2008. No entanto, o promotor julgou os sinos da Matriz como patrimônio histórico-cultural de Urussanga na época”, relembra o padre.